Os donos da verdade
Fica difícil não se incomodar com as notícias que vem do Irã. As imagens são fortes, violentas, repugnantes. Ao mesmo tempo, não consigo me posicionar claramente sobre o assunto. Diante de tantas notícias manipuladas, acreditar em quem? Nos jornalistas americanos? Nos líderes religiosos do Irã? Nos manifestantes de classe média? No povo favorável ao atual regime? Fica claro que as pessoas envolvidas nas manifestações são mais esclarecidas, e segundo consta, fazem parte de uma classe média iraniana. A maioria da população, pobre e obediente às orientações religiosas, é (a princípio) a favor do atual regime. Qualquer pessoa minimamente letrada sabe que os desígnios religiosos são tendenciosos, mentirosos, hipócritas e vis. Sabe que gente ignorante prefere passar a vida servindo a uma Autoridade Imaginária que lhes prometa uma vida redentória após a morte. O uso dessa imagem sobrenatural da existência de um deus (ou alá, ou qualquer nome que se queira dar a esse Bicho-Papão) sempre foi a maior arma de manipulação das massas ignorantes. Mas será que os caras são os demônios que a imprensa americana quer pintar? E se, de fato, não houve fraude? Vejam a Venezuela, por exemplo. A figura nefasta e bizarra de Hugo Chavez causa repugnância na classe média brasileira. (eu, incluso) A classe média venezuelana sofre horrores com os desmandos deste tirano da esquerda, mas as classes mais pobres continuam a apoiá-lo enfaticamente. Ainda que sob forte suspeita de fraude e coação física e moral, suas eleições foram ganhas no voto. Se democracia é a opinião soberana da maioria, como contestar a opinião dos que escolhem um merda? O que há em comum entre estes países? Todos foram eleitos democraticamente, à revelia da "inteligentsia" e das elites de grandes centros intelectualizados. O noticiário americano irradia com robustez a condição da fraude na eleição (eu, pessoalmente, acredito nesta tese) mas eles tem a prova irrefutável daquilo que é ocidentalmente civilizado: a escolha soberana do povo. Assim, ainda que torça pro atual regime se foder no Irã (bem como na Venezuela) a tese de fraude soa uma desculpa golpista. Se os caras que ganham a eleição não são aqueles que a classe média apóia, então não servem. Sem contar com educação, o que fazer senão cair no golpe de lábia dos religiosos e dos populistas? Aos iranianos, desejo boa sorte. Aos venezuelanos, desejo que o Chavez se dane. Quanto a nós, desejo que os próximos candidatos sejam melhor preparados. (e mais dignos do cargo...) +++ Essa questão da angústia da classe média intelectualizada não é coisa externa, apenas. Vejamos a clara divisão socio-geográfica brasileira: se de São Paulo ao Rio Grande do Sul o presidente Lula é uma autoridade questionável, de Minas ao Amazonas o homem é "o cara". Uma parte do país o apóia porque, de fato, sua administração trouxe melhorias. A outra o execra, sob a alegação de que sua administração é falha, sua ética é sofrível e sua conduta é indigna do cargo que ocupa. No entanto, é inegável que Lula é candidatíssimo ao posto de "grande presidente", talvez o maior da história do país. Engolirá Getúlio Vargas nos livros de História? Acho que já é assim. Mais importante: nunca houve a menor suspeita de fraude nas eleições brasileiras. Lula é legitimamente a escolha da maioria. Suas posturas, no entanto, parecem ser impressionantemente ignoradas, tamanho é seu carisma. Suas atitudes populistas, suas relações nunca aprofundadas ou justificadas sobre o Mensalão, sua defesa dos grileiros e ruralistas, sua fraca e tendenciosa atuação no campo da preservação da Natureza, a ambígua relação com a compra de votos pelo Bolsa Família, sua atitude surpreendentemente afável a nomes como Fidel Castro e Hugo Chavez, a devastadora dominação do fisiologismo de seu partido, a espúria relação com os nomes mais retrógrados do peemedebismo safado - tudo isso contrasta com o presidente que virou referência mundial, que olhou carinhosamente para regiões menos priivilegiadas em outras administrações (principalmente o Nordeste), sua política econômica forte o suficiente pra enfrentar a crise mundial de crédito na condição de credor do Fundo Monetário Internacional, (engraçado como deste ângulo ele vira radicalmente neo-liberal), sua forte e bem-sucedida campanha contra a erradicação da fome nos países em desenvolvimento. Altos e baixos, como todo mundo. Como todo homem. Só espero que os próximos candidatos a presidente sejam dignos do cargo que ocuparão. Quanto a ele, que tenha uma digna aposentadoria. E que não volte. +++ A TV brasileira é bem clara quanto às distinções sociais. Nas madrugadas, a TV aberta é invadida por salafrários e golpistas falando em nome do Bicho-Papão, com igrejas evangélicas que se ploriferam como moscas em torno do cocô. Na TV paga, os programas de sexo invadem a madrugada, com closes ginecológicos que fazem corar o Maníaco do Parque. É assim: Aos pobres, a culpa e a esperança de um deus. Aos abastados, a culpa e a esperança das vaginas oxigenadas. O que o poder público faz com esta programação? Nada. Estão muito ocupados defendendo os ruralistas, a devastação das riquezas naturais, os lobbies pró-Copa do Mundo, descobrindo novas formas de (prevaric)ação em atos secretos ou na sacanagem deslavada. Acreditar? Votar? Em quem? Pra quê? Vão me chamar de descrente. Pode ser. Mas diante do câncer generalizado que se transformou a classe política brasileira, alguém se arrisca a colocar a mão no fogo por alguém?
Escrito por impulso incontrolável às 02h31
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