Sobre PAWANA
A experiência de trabalhar em PAWANA foi única. É uma dessas oportunidades que temos, de vez em quando, de provar uma outra maneira de praticar esse ofício, de vivenciar outros pontos de vista com artistas de uma outra cultura. É uma forma de fazer Teatro que não é a nossa. Simples assim. Engraçado também notar que, de certa forma, me leva a identificar um "jeito" brasileiro de pensar e agir no Teatro, diferente daquilo que vejo quando assisto um espetáculo na Europa ou nos EUA. O rigor de dizer o texto (maravilhoso) de J. M. G. Le Clezio, sem a dinâmica de cena habitual, contando apenas com as imagens e a dinâmica interior e orgânica, me fez aproximar do universo de "A Noite Antes da Floresta", onde eu também não contava com nenhum apoio, cênico ou humano, que não fosse do meu universo interior. PAWANA exigiu ainda mais: George Lavaudant queria um mínimo de movimentos, "liberando" apenas o uso das mãos em três momentos específicos. 
foto Lenise Pinheiro Difícil? Muito, mas ao mesmo tempo muito libertador, muito esclarecedor da energia interna do ator, capaz de extrapolar o limite físico. Em alguns momentos, eu simplesmente não estava ali, e sim entregue ao mar e às baleias de Le Clezio. Culturalmente, estava exposto a um outro desafio: a aceitação do público. Impaciente, o espectador brasileiro (que já é raro) parece rejeitar uma encenação onde "nada acontece". Sente a falta da surpresa, da pirotecnia, da imagem pronta, como se essa imagem fosse suficiente para carregar uma (boa) lembrança do espetáculo. Ou seja, sente falta de uma boa foto. 
Temos um público viciado e mimado. Quer rir, quer ação, quer movimento, trocas de cenário, de figurinos. Se tiver alguém pelado, tanto melhor! Mas onde fica a palavra, onde fica a idéia nisso tudo? O espectador médio brasileiro tem a inteligência emocional de uma adolescente de treze anos: quer luz, cores, imagens prontas, brilho e sons. Não é, em sua maioria, um espectador afeito ao mundo ideal, não tem apreço pela reflexão. A classe média que preenche as cadeiras de uma sala de espetáculos comerciais está comprometida demais com/pela linguagem da TV. 
Assim, o Teatro que já é moribundo em todo o mundo, é um bicho em extinção no Brasil. Devíamos sair das garras asquerosas do ministério da Cultura para os braços do IBAMA. 
A classe média intelectualizada de São Paulo é um caso à parte. Óbvio que haviam dezenas de apreciadores do fenômeno teatral irrestrito, amantes da narrativa cênica. O restante do público, no entanto, era conduzido pela promessa mágica de uma encenação estrangeira, colonizados que (f)somos. Presos ao passado, quando as novidades internacionais eram plenamente aceitas - gentilmente ou à fórceps - os aplausos da platéia que lotou (e como) a pequena sala do TUSP me levaram a pensar, novamente, sobre a prática do Teatro atualmente, a me perguntar quem é esse público, o que ele quer, e o que podemos oferecer a ele pra que não fiquem dentro desta insossa margem de segurança. Arte não é um terreno seguro. A vida também não. 
Quanto mais penso nisso, mais ódio tenho da estúpida frase cantada pelo insuportável Milton Nascimento: "Todo artista tem de ir aonde o povo está". Esta pérola do pensamento de auto-ajuda da MPB reflete a corrente vigente no terceiro mundo, permeia as cabeças médias das classes médias dessa quase idade média, afetando os modos de produção da classe artística brasileira, levando a um fatal sistema de empobrecimento dos meios. Tudo fica mais ou menos. Para produzir, pensa-se primeiro no que o espectador médio gostaria de ver, e não naquilo que o faria suplantar suas deficiências intelectuais, artísticas e sociais. SEI O QUÃO PRESUNÇOSA ESTA AFIRMAÇÃO PODE SOAR, MAS É A INFELIZ CONSTATAÇÃO QUE CHEGO. 
Fracassamos quando damos ao público apenas o que ele quer: a TV fornece material mais digerível e bem-vindo. Não adianta lutar contra ela. Só precisamos NÃO SER ELA. Ou nos tornamos uma opção, levando o espectador a um universo onde sua capacidade de imaginação e reflexão se amplie, ou abandonamos os palcos e nos jogamos de corpo e alma à esta entrega do espectador médio, do produto digerido, legendado e sublinhado. 
Eu prefiro o Teatro. 
Escrito por impulso incontrolável às 15h14
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